INTRODUÇÃO AO TRIMESTRE - COMENTARISTA : Claudionor Correa de Andrade
A) Chegamos ao término de mais um ano letivo na Escola Bíblica Dominical, ano que se iniciou com o estudo de um livro da Bíblia, a epístola de Paulo aos Romanos, estudado sob o enfoque da doutrina da salvação e da justificação. Em seguida, estudamos a respeito das falsas doutrinas que têm proliferado no mundo da atualidade, inclusive os “modismos”, que ameaçam a saúde espiritual dos servos do Senhor. Em celebração ao centenário do movimento pentecostal mundial, ocorrido neste ano de 2006, estudamos as doutrinas bíblicas pentecostais e, agora, encerramos o ano analisando as verdades centrais da fé cristã, as “doutrinas bíblicas”, estudo este que é denominado de Teologia Sistemática.
A Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus, ou seja, a revelação de Deus ao homem e, por isso, tudo que quisermos saber a respeito de Deus e que é relevante para a nossa salvação se encontra neste livro sagrado, fruto de uma revelação progressiva que o Senhor foi dando aos homens, durante um espaço de mais de mil anos.
Como a Bíblia Sagrada tem como seu único autor o próprio Deus, temos que esta obra apresenta uma unidade, um conjunto de ensinamentos que foi sendo revelado aos homens durante o tempo da inspiração das Escrituras. Estes ensinos dizem respeito a Deus, ao homem e ao processo pelo qual Deus deseja ter o homem em Sua companhia, mesmo depois que o homem quis se tornar independente de Deus, negando-Lhe obediência.
Todos estes ensinos constantes das Escrituras constituem o que se denomina de “doutrina” ou, ainda, a “sã doutrina”. “Doutrina” é palavra de origem latina que significa “o ensino dos doutores”, ou seja, o “ensino dos sábios”, o “ensino de quem sabe”. No caso da Bíblia Sagrada, dizemos que a “doutrina” ou a “sã doutrina” é o ensino constante das Escrituras, fruto da inspiração do Espírito Santo aos escritores dos diversos livros bíblicos, ou seja, aquilo que Aquele que sabe (ou seja, Deus) quer que o homem saiba para se salvar e ter a vida eterna.
Tais ensinos, naturalmente, encontram-se espalhados pelos diversos escritos inspirados da Bíblia Sagrada, visto que a Bíblia, como seu próprio nome indica, é um conjunto de livros, uma verdadeira “biblioteca”, cuja harmonia é, sem dúvida alguma, um milagre da parte do Senhor para cada ser humano.
Usando da sua capacidade de raciocínio, conferida por Deus ao homem, como vemos em Gn.2:19,20, o ser humano, ao observar a Bíblia Sagrada, logo descobriu que, nos diversos livros, que poderiam ser estudados individualmente, um a um, existia um conjunto de verdades a respeito de Deus, do homem, das demais criaturas e do relacionamento entre Deus e o homem, verdades estas que eram sempre as mesmas, até porque o autor de cada livro das Escrituras é o mesmo, embora os instrumentos sejam vários.
Por isso, logo surgiram duas formas de se estudar a Bíblia Sagrada: uma, através de cada livro da Bíblia isoladamente, mais apropriada para o estudo devocional diário; outra, por meio da coletânea destas verdades básicas e fundamentais que se encontram em todos os livros da Bíblia, de modo a que possamos perceber quais são os grandes e principais ensinamentos de Deus a nós a respeito dEle próprio, das demais criaturas e do relacionamento entre Deus e o homem. Este estudo deu origem à chamada “teologia sistemática”, cuja organização remonta já aos primeiros anos depois que se completou a inspiração das Escrituras.
A “Teologia Sistemática”, portanto, nada mais é que o estudo das verdades bíblicas fundamentais, das chamadas “doutrinas bíblicas”, ou seja, um estudo das principais verdades reveladas por Deus ao homem através da Bíblia Sagrada, que foram racionalmente organizadas pelos estudiosos, mediante a análise de cada livro das Escrituras.
Ao contrário do que ainda alguns mal informados que existem entre nós e que são inimigos do estudo das Escrituras, vemos que a “teologia” não é mal algum à vida espiritual do crente. Pelo contrário, a “teologia” se constitui no uso da razão, um dos principais atributos que Deus deu ao homem, para o entendimento da revelação divina, para o conhecimento daquilo que o Senhor quis nos ensinar a respeito de Si próprio, do mundo criado e do relacionamento dEle com o homem.
A importância do estudo da doutrina, além de ser o assunto da nossa primeira lição, voltará a ser analisada por nós nas lições 13 e 14, como veremos abaixo.
Tradicionalmente, os estudiosos das Escrituras identificam dez, doutrinas bíblicas fundamentais, que serão o objeto do nosso estudo neste trimestre, a saber:
a) Bibliologia – é a doutrina da Bíblia, ou seja, o ensino que nos mostra que a Bíblia é a Palavra de Deus, a única fonte de revelação de Deus aos homens, a verdade (Jo.17:17). Analisaremos a Bibliologia na lição 11.
b) Teologia propriamente dita ou Teontologia – é a doutrina de Deus, ou seja, o ensino bíblico a respeito de Deus, de Sua natureza, de Seus atributos, de Sua triunidade. Estudaremos a Teologia propriamente dita ou Teontologia nas lições 2 e 5.
c) Cristologia – é a doutrina de Cristo, ou seja, o ensino a respeito do Filho de Deus, inclusive sobre a Sua encarnação e a dupla natureza daí resultante. Estudaremos a Cristologia na lição 3.
d) Pneumatologia, Pneumagiologia ou Paracletologia – é a doutrina do Espírito Santo, ou seja, o ensino a respeito dessa Pessoa da Trindade. Estudaremos a Pneumatologia na lição 4.
e) Angelologia – é a doutrina dos anjos, ou seja, o ensino a respeito destes seres celestiais, inclusive aqueles que pecaram. Estudaremos a Angelologia na lição 6.
f) Antropologia – é a doutrina do homem, ou seja, o ensino a respeito do ser humano, sua criação, seu papel na ordem cósmica, seus atributos. Estudaremos a Antropologia na lição 7.
g) Hamartiologia – é a doutrina do pecado, ou seja, o ensino a respeito do pecado, sua origem e suas conseqüências no relacionamento entre Deus e o homem. Estudaremos a Hamartiologia na lição 8.
h) Soteriologia – é a doutrina da salvação, ou seja, o ensino a respeito da salvação do homem, do plano de Deus para a salvação do ser humano e do significado desta salvação. Estudaremos a Soterologia na lição 9.
i) Eclesiologia – é a doutrina da Igreja, ou seja, o ensino a respeito da Igreja, este povo formado por causa da salvação da humanidade na pessoa de Cristo Jesus. Estudaremos a Eclesiologia na lição 10.
j) Escatologia – é a doutrina das últimas coisas, ou seja, o ensino a respeito dos fatos que se sucederão após o período da Igreja sobre a face da Terra, começando pelo arrebatamento da Igreja e envolvendo a Grande Tribulação, o reino milenial de Cristo, o julgamento final e o Estado Eterno. Estudaremos a Escatologia na lição 12.
Depois de termos estudado as dez doutrinas bíblicas fundamentais, teremos duas lições em que abordaremos os efeitos positivos do estudo doutrinário para a vida espiritual. Na lição 13, veremos que o estudo da doutrina, ao contrário do que dizem os mal informados anti-intelectualistas, produz avivamento e, na lição 14, veremos a importância da leitura na vida espiritual do cristão.
O conhecimento das verdades bíblicas fundamentais é uma necessidade para a vida de qualquer cristão. A falta de conhecimento destas verdades foi apontada pelo autor da epístola aos hebreus como um dos motivos pelos quais aqueles crentes corriam o risco de apostatar da fé (Hb.5:12-6:2), numa repetição do que já havia afirmado o profeta Oséias, que denunciou que o motivo da destruição do reino do norte, o reino de Israel, se deu pela falta que o povo tinha de conhecimento das coisas de Deus (Os.4:6).
Que o estudo deste trimestre sirva para renovar o nosso alicerce espiritual e, assim, nestes dias tão difíceis, permitir que continuemos firmes e inabaláveis, aguardando a volta do Senhor. São os sinceros votos que damos aos irmãos, aproveitando a oportunidade para lhes desejar um Feliz 2007.
B) LIÇÃO Nº 1 – A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA BÍBLICA PARA A VIDA CRISTÃ
O homem precisa aprender de Deus para ter uma vida espiritual correta e este aprendizado só é possível porque existe a doutrina bíblica.
INTRODUÇÃO
- A Bíblia Sagrada é a revelação de Deus para a humanidade. Esta revelação contém ensinos preciosos e indispensáveis para que o homem viva. Estes ensinos é que constituem a “doutrina bíblica” ou “sã doutrina”.
- A “doutrina” verdadeira é a que provém da Palavra de Deus, é o ensino de Deus ao homem, não podendo se confundir com imaginações, filosofias ou invenções humanas, mesmo as que decorrem de costumes e culturas.
I – O QUE É DOUTRINA E A PALAVRA “DOUTRINA” NA BÍBLIA SAGRADA
- Doutrina é palavra de origem latina, cujo significado é “conjunto coerente de idéias fundamentais a serem transmitidas, ensinadas”. Em latim, “doctrina” significa “ensino, instrução dada ou recebida, arte, ciência, doutrina, teoria, método”. Assim, a doutrina é um ensinamento, uma instrução que alguém dá a outrem. Aliás, a palavra “doctrina” é derivada de “docere”, que significa ensinar. Doutrina, portanto, é um ensinamento, um ensino, uma instrução que alguém que sabe (o sábio ou “doutor”) dá a alguém que não sabe (o aprendiz).
- Vemos, portanto, pelo seu significado latino, que “doutrina” significa ensino e, portanto, quando falamos em “doutrina bíblica” estamos a falar no “ensino da Bíblia”. Ora, a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, o “ensino da Bíblia” nada mais é que o ensino da Palavra de Deus, o ensino de Deus ao homem. “Doutrina”, portanto, é o ensino que Deus dá ao homem a partir da Sua Palavra, da revelação divina à humanidade, que consta da Bíblia Sagrada.
- A primeira vez que surge a palavra “doutrina” nas Versões Almeida (Revista, Corrigida, Fiel e Contemporânea) é em Dt.32:2, onde, no cântico de Moisés, consta a expressão “goteje a minha doutrina”, palavra que é a tradução de “leqach”, cujo significado é “ensino”, “instrução”, tanto que a palavra é traduzida por “ensino” em outras versões bíblicas (como a Tradução Brasileira, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje e a Nova Versão Internacional). Neste primeiro aparecimento da palavra, ainda que em um contexto poético, percebe-se claramente que Moisés considera que todos os ensinos que havia dado ao povo de Israel, ensinos estes que eram resultado da revelação divina ao próprio Moisés, constituíam ensinos que deveriam ser continuamente ministrados ao povo e que representavam para este povo a sua própria fonte de vida, a sua própria renovação, pois deveriam estes ensinos “gotejarem”, ou seja, pouco a pouco, de forma contínua e permanente, cair sobre o povo, a fim de lhe dar vida, assim como a chuva e o orvalho, pela manhã, fazem em relação à terra.
- Esta expressão de Moisés, também, mostra-nos que a doutrina é algo que vem do alto, que vem do céu, seja na forma de chuva, seja por meio da condensação do vapor d’água encontrado no ar(o orvalho), indicando-se que a doutrina não é obra do homem, mas resultado da revelação divina, de um ensino vindo diretamente da parte do Senhor.
- Por fim, a expressão de Moisés dá-nos a nítida noção de que o trabalho da doutrina é manter a vida e uma vida renovada no ser humano, pois é comparada ao chuvisco sobre a erva e a gotas d’água sobre a relva. Todos nós já divisamos, pela manhã cedinho, o orvalho que está a manter molhadas as ervas e a relva, mantendo-as bem verdes, dando-lhes vida, vigor e exuberância (i.e., beleza). Os campos verdes, pela manhã, aquele frescor que sentimos quando nos encontramos em uma área verde logo pela manhã, que tão bem nos faz à saúde, é o resultado desta ação refrescante da chuva e do orvalho. Este é o papel da doutrina em nossa vida espiritual: refrigério para a nossa alma, renovação de nossas forças espirituais, concessão de beleza e de prazer aos nossos corações e a todos quantos travam contacto conosco. Bem se vê, portanto, que bem ao contrário dos que dizem que a doutrina torna o homem insensível a Deus, vemos que o papel da doutrina é precisamente o de nos conceder vida, vida abundante, refrescor e sensibilidade diante de Deus e dos homens.
- A segunda vez que vemos a palavra doutrina nas Versões Almeida é em Jó 11:4 (é importante lembrarmos que Jó seja, talvez, o livro mais antigo da Bíblia e, portanto, a sua referência seria anterior mesmo a de Dt.32:2), que é a mesma palavra “leqach” já mencionada. Aqui, um dos “amigos” de Jó, Zofar, acusa Jó de dizer que a “sua” doutrina era pura e que ele se sentia limpo aos olhos de Deus. A palavra “doutrina”, aliás, também é empregada pela Tradução Brasileira, pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje e pela Nova Versão Internacional. Temos o mesmo significado do texto anterior. Embora se esteja a referir a um conjunto de ensinos de Jó, Zofar está a considerar que o patriarca é presunçoso ao querer dizer que seus ensinos são provenientes da parte de Deus. Doutrina continua a ser considerada como um ensino vindo da parte de Deus, um ensinamento com origem no céu.
- A palavra “doutrina” somente reaparecerá no livro de Provérbios, onde, na Versão Almeida Revista e Corrigida e na Edição Contemporânea de Almeida, é encontrada em Pv.1:8, 4:2, 13:14 e 16:23. Em Pv.1:8, é tradução da palavra “muwcar”, que a Versão Almeida Revista e Atualizada preferiu traduzir por “instrução” e a Fiel e Corrigida por “ensinamento”. Com efeito, aqui se tem, basicamente, a idéia de uma orientação, de um ensino feito com base em repreensão e castigo, algo próprio da autoridade paterna.
- Já em Pv.4:2, temos a repetição da palavra “leqach” e a opção das versões pelo uso da palavra “doutrina”, que, no contexto, se refere ao ensino da Sabedoria, verdadeira personificação de Deus na linguagem do proverbista. Este ensino, além de vir do alto, é tido como bom. Fala-se da “boa doutrina”, a nos indicar que o ensino de Deus ao homem é bom por duas razões: a primeira, porque sendo um ensino de um ser que é bom (e não há ser bom a não Deus – Mt.19:17; Mc.10:18, Lc.18:19), ele só poderia, mesmo ser bom; a segunda, porque é um ensino que produz o bem aos que o aprendem. Além do mais, o proverbista faz uma correlação importantíssima: a boa doutrina não nos permite que deixemos a Sua lei. “Boa doutrina”, portanto, não é aquela que se apresente brilhante do ponto-de-vista intelectual nem que consegue acomodar as nossas crenças e o nosso modo de vida, mas única e exclusivamente aquela que estiver de acordo com a lei do Senhor, com a Palavra de Deus.
- Em Pv.13:14, na Versão Almeida Revista e Corrigida bem como na Almeida Fiel e Corrigida, a palavra “doutrina” é utilizada para traduzir “torah”, palavra que é comumente traduzida por “lei”, mas cujo significado é mais precisamente “instrução”, “ensino”. Aqui se diz que “a doutrina do sábio” é fonte de vida para se desviar dos laços da morte. A doutrina do sábio não é, propriamente, do sábio, pois, como nos ensina o próprio proverbista, o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv.9:10), no que é acompanhado pelo salmista (Sl.111:10). Portanto, a “doutrina do sábio” outra não é senão a Palavra de Deus e só ela é capaz de dar origem à vida e nos desviar dos laços da morte. A doutrina, como se vê, portanto, é o próprio fator criador da vida espiritual e da sua manutenção até o fim.
OBS: A propósito, ensina-nos Nathan Ausubel que a Bíblia, para os judeus, no seu sentido singular de Torah, “…tem sido considerada pelos fiéis como redentora, quando entendida como forma total de vida…” (AUSUBEL, Nathan. Bíblia. In: A JUDAICA, v.5, p.77).
- Jesus, certa feita, disse que tinha vindo para trazer vida e vida em abundância (Jô.10:10). Disse, também, que Ele próprio era a vida(Jo.14:6), bem como o pão da vida(Jo.6:48). Ao Se dizer a vida, também disse ser a verdade (Jo.14:6) e a verdade, disse em outra oportunidade, é a Palavra de Deus(Jo.17:17). Por isso, a doutrina, enquanto ensino da Palavra de Deus, só pode, mesmo, ser a fonte de vida, de modo que não tem qualquer sentido alguém vir a dizer que o estudo, o aprendizado da Palavra de Deus seja causa de morte (interpretando, fora de contexto e sem qualquer fundamento, a expressão “a letra mata” de II Co.3:6). Bem ao contrário, é a doutrina quem nos desvia dos laços de morte, como, aliás, tivemos oportunidade de estudar no segundo trimestre deste ano, quando vimos que só o conhecimento da doutrina da Palavra de Deus nos impede de sermos enganados pelas falsas doutrinas, heresias e modismos que proliferam com cada vez maior intensidade à medida que se aproxima o dia da volta de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
- Em Pv.16:23, a Versão Almeida Revista e Corrigida utiliza a palavra “doutrina”, que é a mesma palavra hebraica “leqach”. Entretanto, tal versão ficou isolada nesta tradução, pois a Versão Atualizada traduziu o termo por “persuasão”, a Fiel e Corrigida por “ensino” e a Edição Contemporânea por “instrução”. De qualquer modo, em que pese o isolamento da versão, temos aqui um outro ensino relevante a respeito da doutrina. É a circunstância de que a doutrina vem do coração, ou seja, o que o sábio ensina é o que lhe vem do coração e, sabemos, que o princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Por isso, o que vem do coração do sábio é o que aí foi colocado pelo próprio Espírito Santo e, portanto, temos que a doutrina nada mais é que o resultado da operação do Espírito Santo na vida de alguém. O próprio Jesus nos ensina isto ao dizer que o Espírito Santo, que Ele mandaria para ficar com os Seus servos, nos ensinaria todas as coisas e nos faria lembrar de tudo quanto Jesus, a Palavra, havia dito (Jo.14:26). Vemos, pois, que a doutrina nada mais é que o resultado do ensino do Espírito Santo, o nosso Mestre por excelência. Mais uma vez, portanto, sem qualquer fundamento quem acha que o estudo doutrinário é uma exaltação humana. Bem ao contrário, o que temos é uma demonstração de submissão do homem, de reconhecimento da soberania e supremacia divinas.
- A palavra “doutrina” reaparece na Versão Almeida Revista e Corrigida em Is.29:24, onde, mais uma vez, traduz “leqach”, sendo seguido pela Fiel e Corrigida, já que a Atualizada e a Edição Contemporânea traduzem o termo por “instrução”. No texto, é dito que os murmuradores aprenderiam doutrina quando houvesse a santificação que o profeta prometia para o povo do Senhor. A santificação e o temor a Deus fariam com que os murmuradores, ou seja, aqueles que se queixam de Deus, que se rebelam contra o Senhor, viessem a aprender “doutrina”. Vemos que a “doutrina” só é aprendida por quem se separa do pecado, por quem se submete ao Senhor, por quem prima por uma vida de comunhão com Deus. Por isso, sentimos muita preocupação ao saber que muitos crentes, na atualidade, fogem dos “cultos de doutrina”, dos “cultos de ensino”, prova de que não estão a se santificar.
- A Versão Almeida Revista e Corrigida menciona “doutrina” em Is.42:4, para traduzir, desta feita, “torah”, sendo seguida pela Versão Atualizada. Já a Edição Contemporânea e a Fiel e Corrigida preferiram traduzir o termo por “lei”, mas, como dissemos supra, o termo “torah”, embora tenha adquirido a conotação de “lei” tem como seu significado o de “instrução”, de “doutrina”.
OBS: “…Há entre muitos judeus, e também cristãos, uma noção errônea muito difundida de que a tradução exata de ‘Torah’ é ‘Lei’. Esse erro, provavelmente involuntário em sua origem, foi sem dúvida cometidos pelos tradutores judeus de Alexandria, no século III a.E.C., que prepararam a versão grega da Bíblia, denominada Septuaginta. Estimulados, provavelmente, pela predileção pela lei característica do ambiente cultural helenista, traduziram de maneira incompleta o conceito da palavra hebraica, fazendo-a aparecer como ‘Lei’. Uma vez que a versão Septuaginta das Escrituras era quase universalmente usada pelos judeus fora da Judéia e das regiões de língua aramaica do mundo greco-romano — poucos judeus ali sabiam hebraico ou mesmo aramaico (targum) — era natural que a tradução de Torah como ‘Lei’ entrasse nas obras judaicas pós-bíblicas escritas em grego ou traduzidas do hebraico para a língua grega.(…). O conceito de Torah entre os judeus, no entanto, é muito mais amplo e mais profundo do que tão somente a ‘Lei’: no seu sentido etimológico completo, ‘Torah’ também tem a conotação de ‘doutrina’, ‘instrução’ e ‘orientação’. Mesmo o exame mais superficial do Pentateuco comprova que a Torah tenta ser um inspirado guia absoluto para toda a crença e o culto, e abranger todas as ramificações da conduta individual e social. É, portanto, uma supersimplificação encarar a Torah como sendo somente ‘Lei’. A Torah também é uma crônica genealógica dos primórdios de Israel e inclui as biografias de seus ilustres antepassados e dos primeiros líderes. Além disso, é um sermão fervoroso: ensina e moraliza ininterruptamente. Exorta, incansavelmente, o israelita como indivíduo como a coletividade inteira de Israel, a esquivar-se das más ações e tomar os caminhos da verdade, da virtude, da misericórdia e da justiça, imitando os próprios atributos de Deus; a abandonar a adoração de ídolos e a encontrar Deuys vivo na prática do preceito ‘Ama teu próximo como a ti mesmo’, o qual, como disse Rabi Akiva no século II, é o princípio central da religião judaica.…” (AUSUBEL, Nathan. op.cit., p.81-2).
- Ao nos depararmos com este texto do profeta Isaías, vemos claramente que o Servo do Senhor prometido para o futuro seria alguém que traria a “doutrina” de Deus para as ilhas, isto é, até as extremidades da Terra. Neste texto, vemos que a missão de Jesus, o Messias, o Servo do Senhor, era o de levar a “doutrina” do Senhor para toda a Terra, “torah” que havia sido dada inicialmente só a Israel. Por isso, ao iniciar Sua pregação, o Senhor conclamou Seu povo ao arrependimento e a crer no Evangelho(Mc.1:14,15), o mesmo que determinou que fizéssemos depois de Sua ascensão ao céu (Mc.16:15). O “evangelho” é a “doutrina de Cristo”, é a “doutrina de Deus”. Por isso, não podemos crer em qualquer outra doutrina, em qualquer outro evangelho, ainda que seja trazido por anjos (Gl.1:8).
- Após o prenúncio da atuação de Cristo com relação à doutrina em Isaías, encontraremos apenas a palavra “doutrina” em o Novo Testamento, mais precisamente, em Mateus, onde o termo aparece, na Versões Almeida (Revista e Corrigida, Fiel e Corrigida, Atualizada e Contemporânea) em 7:28, 16:12 e 22:33(neste versículo, a Edição Contemporânea traduz a palavra ‘didaché’ por “ensino”), termo que é tradução de “didaché” (διδαχή), cujo significado é muito similar ao de “leqach”, pois quer dizer “instrução”, “ensino”, “o que é ensinado”.
- Nas três referências de Mateus, a palavra “doutrina” é utilizada para designar o conjunto de ensinamentos ministrados ao povo, sejam os ensinos de Jesus (7:28 e 22:33), seja os ensinos dos fariseus (16:12). “Doutrina”, portanto, é um conjunto de ensinos, a coleção dos ensinamentos que os mestres dos tempos de Cristo ensinavam, seja Ele próprio, seja o dos fariseus.
- Nas referências de Mateus, a doutrina de Jesus é apresentada como algo que admira, que causa assombro para os ouvintes, mostrando ser algo diferente, algo que não se confundia nem com a religiosidade existente, nem com as filosofias que também faziam parte dos discursos e ensinos ministrados naquela época. A doutrina de Jesus, portanto, como se pode observar é algo que não obedece a culturas, a costumes, nem à lógica humana.
- Em Mateus, também, vemos que a doutrina religiosa baseada na formalidade, na aparência exterior, no preconceito, nos rituais, nas cerimônias é uma doutrina que não tem o amparo nem a aprovação divinos, tanto que o Senhor fez questão de chamar tal doutrina de “fermento”, determinando aos Seus discípulos que jamais acolhessem, em seus corações, uma doutrina desta natureza. Já aqui vemos que o Senhor bem diferençava entre doutrina e costumes, entre doutrina e aspectos de somenos importância criados pelos homens para seu engrandecimento próprio.
- É assaz importante observar que a palavra grega “didaché” possui um significado passivo, ou seja, em muitas ocasiões seu significado é “o que é ensinado”, como a demonstrar que a “doutrina” não é algo que seja criação humana, mas, sim, algo que é recebido pelo homem da parte de Deus. A “doutrina”, portanto, não é algo que venha da imaginação ou da mentalidade de um homem, mas, sim, única e exclusivamente aquilo que tem origem em Deus. Não foi à toa que, no mesmo evangelho segundo Mateus, vemos a expressão esclarecedora do Senhor: “aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt.11:29b).
- Este é o mesmo significado que encontramos nos outros dois evangelhos sinóticos. Em Marcos e em Lucas, a doutrina é apresentada como o conjunto de ensinamentos de Cristo, ensinamentos estes que causavam admiração por parte do povo, que também sentia que era um ensino que vinha de quem tinha autoridade, ou seja, de quem vivia aquilo que ensinava (Mc.1:27; 4:2; 11:18; Lc.4:32).
- Não é diferente no evangelho segundo João. Neste evangelho, escrito para mostrar que Jesus é o Filho de Deus, está uma das mais importantes afirmações bíblicas a respeito da doutrina. Interpelado sobre Seus ensinos, o Senhor Jesus limitou-se a dizer: “…A Minha doutrina não é Minha, mas dAquele que Me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dEle, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se Eu falo de Mim mesmo.” (Jo.7:16,17).
- Jesus mostra-nos, claramente, que a Sua doutrina outra não era senão a doutrina do Pai. A doutrina não fala do próprio doutrinador, mas, sim, de Deus e somente quem vivenciar a doutrina, quem nela crer e por ela viver, verá que esta doutrina é a verdade, que esta doutrina é a vontade de Deus. A doutrina é a manifestação da vontade de Deus para o homem. Seguir a doutrina é seguir a vontade de Deus para o homem e é por isso que muitos se têm levantado contra a doutrina, porque ela implica na renúncia do eu, na renúncia do ego, na renúncia de nós mesmos, sem o que é impossível seguir a Jesus (Mt.16:24). Daí porque Jesus foi interrogado pelo sumo sacerdote a respeito de Sua doutrina (Jo.18:19).
- Se temos a doutrina de Cristo, se a seguimos, não podemos, portanto, ser diferentes. A doutrina tem de ser a mesma e, neste passo, os doutrinadores não podem querer aparecer ou dizer o que é certo ou o que é errado, como muitos têm feito e já o faziam nos tempos apostólicos, onde já se registravam doutrinas de homens (Mt.15:9; Mc.7:7; Cl.2:22) e até doutrinas de demônios (I Tm.4:1). Devemos permanecer na doutrina de Cristo, pois quem não persevera nesta doutrina não tem a Deus (II Jo.9).
- Esta doutrina foi mantida pelos apóstolos e tal circunstância nos mostra, claramente, que é a doutrina que deve ser seguida pelo povo de Deus, pela Igreja. A primeira nota característica que se escreve a respeito dos salvos reunidos para fora do mundo, a partir do dia de Pentecostes, foi o fato de que “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At.2:42). Na igreja primitiva, o trabalho dos crentes outro não era senão encher Jerusalém da doutrina (At.5:28). A preocupação dos apóstolos era orar e ensinar a Palavra de Deus à igreja, ou seja, dar doutrina (At.6:2,4). Com estas informações que nos vêm do texto sagrado, temos alguma dúvida por que a igreja prosperava e a todo instante o Senhor acrescentava aqueles que haviam de se salvar (At.2:47) ? Simplesmente porque dava o primeiro lugar, em sua atividade, à doutrina !
- Esta primazia da doutrina foi sempre uma característica da igreja nos tempos apostólicos. Vemos que o procônsul Sérgio Paulo se admirou da doutrina pregada por Paulo (At.13:12), que não era de Paulo, mas do Senhor, como também, em Atenas, quiseram os filósofos do Areópago ter conhecimento da nova doutrina, precisamente a que era ensinada pelo apóstolo (At.17:19). Paulo, por sinal, em seus escritos, sempre demonstrou sua preocupação para que a doutrina tivesse sempre um espaço privilegiado não só na vida de cada crente, mas nas igrejas locais, pois entendia que ser salvo era ter adotado uma nova doutrina (Rm.6:17), que os inimigos dos crentes são os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina (Rm.16:17), que um culto não tem sentido se não houver doutrina (I Co.14:6,26), que a vida familiar deve ser construída, notadamente a educação dos filhos, pela doutrina do Senhor (Ef.6:4), que a vida do ministro está indissociavelmente vinculada ao ensino e à observância da sã doutrina (I Tm.1:3,10; 4:6,16; 5:17; 6:1,3; II Tm.4:2,3; Tt.2:1,7,10).
- O autor aos hebreus também demonstrou sua preocupação para com a doutrina, mostrando ser ela o verdadeiro alicerce que impede a apostasia do crente (Hb.6:1,2). O apóstolo João, também, mostrou a necessidade de o crente sempre observar a sã doutrina e nela perseverar (II Jo.2,9), bem assim, no Apocalipse, registrando as palavras do Senhor Jesus para as igrejas da Ásia, mostrou quão abominável é ao Senhor que os santos se desviem dos santos caminhos por causa de outras doutrinas (Ap.2:14,15 e 24).
II – A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA PARA A VIDA CRISTÃ ANTE AS REFERÊNCIAS BÍBLICAS ESTUDADAS
- Pelo que vemos das menções bíblicas à doutrina, é ela de fundamental importância para a vida espiritual de um servo de Deus. Em primeiro lugar, a Bíblia nos afirma que a doutrina é a fonte da vida espiritual, ou seja, não há sequer vida espiritual, não há comunhão com Deus se não houver a doutrina. Com efeito, como sabemos, a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus e a exposição e pregação da Palavra de Deus faz parte do ministério da palavra, que era tão considerado pelos apóstolos. Para que alguém ouça a palavra, é preciso que alguém a pregue e, quando pregamos a Palavra de Deus, estamos expondo a doutrina, pois a Palavra de Deus é o ensino que Deus deu aos homens para que estes possam obter a sua salvação.
- Como se não bastasse a doutrina ser a própria fonte da vida espiritual, temos que a sua continuidade é fundamental para que nos mantenhamos separados do pecado. Jesus disse que deveríamos ser santificados na verdade, ou seja, na doutrina e Moisés, como já dissemos supra, também afirmou que a doutrina deveria gotejar, cair como chuvisco e como orvalho, operando a renovação espiritual que é necessária para cada servo de Deus. Como dizem os judeus, devemos estudar a “Torah” até a morte, porque o homem esquece e, se esquecermos dos ensinos do Senhor, fatalmente pereceremos. A doutrina, portanto, além de ser a fonte da vida espiritual, é a base para o seu crescimento, de forma que a sobrevivência do cristão está vinculada à doutrina, ou seja, ao seu constante aprendizado da Palavra de Deus. Uma das características da igreja primitiva era a perseverança na doutrina dos apóstolos (At.2:42)
- Mas a doutrina, além de ser fonte e base de crescimento é, também, o alicerce da nossa vida espiritual. Jesus, no sermão do monte, disse que aquele que ouve e pratica as Suas palavras é semelhante ao sábio que edifica sobre a rocha. A rocha, portanto, nada mais é que o próprio Cristo, que a própria Palavra que por Cristo foi dita e que é lembrada e anunciada a nós por obra do Espírito Santo (Jo.14:26). Sem este fundamento, não poderemos crescer, pois são os rudimentos da doutrina (Hb.6:1). A Igreja, este povo de Deus, é edificado sobre a doutrina de Cristo e dos apóstolos, que já havia sido prenunciada pelos profetas (Ef.2:20). Sem doutrina, portanto, não se tem como possível a construção de uma edificação espiritual sobre a rocha, que resista aos abalos das provações, das tentações e das conseqüências dos nossos atos.
- A doutrina, portanto, é fonte, base de crescimento e alicerce da vida espiritual do cristão. Mas, além de tudo isto, vemos que a doutrina, também, é um guia de direção para todos os crentes. Somente pela doutrina sabemos como proceder nas muitas e diversas situações que vivemos a cada dia. A doutrina é nosso guia de comportamento, é nosso critério de ação, a nossa única regra de fé e prática, como se costuma dizer. O cristão não confia em homens, nem segue orientações humanas, mas tem à sua disposição o ensino do Salvador, a doutrina, que se encontra registrada na Palavra de Deus. Que privilégio sabermos que nosso Mestre é o próprio Senhor Jesus, Que, aliás, sempre reconheceu esta Sua qualidade (Jo.13:13). Por isso, não podemos admitir crentes que se espelham em outros homens, seguem preceitos e mandamentos humanos, com muito mais ardor do que a doutrina bíblica, residindo aí, aliás, um dos grandes focos de decepções e de escândalos, para não dizer de desvios espirituais e, mesmo, de apostasia. O verdadeiro crente tem de ser um conhecedor da doutrina e uma pessoa dirigida única e exclusivamente pelo Espírito Santo, cuja direção nada mais é que nos fazer lembrar o que Jesus anunciou em Sua Palavra.
- A importância da doutrina, da Palavra de Deus é tanta que o salmista afirmou que o Senhor pôs a Sua Palavra sobre Ele próprio, acima dEle mesmo (Sl.138:2). Se Deus dá tamanha importância à Sua Palavra, que, quando ensinada para nós, torna-se doutrina, por que haveríamos de menosprezá-la?
- Uma das características dos dias em que vivemos é o abandono da sã doutrina. Muitos dentre os que crentes se dizem ser, como nos afirmam as Escrituras, terão comichões nos ouvidos e não sofrerão mais a sã doutrina(II Tm.4:3), ou seja, não quererão se dobrar aos ensinos da Palavra de Deus e o distorcerão, a fim de poderem praticar os seus pecados, construindo para si doutores que justifiquem seus pecados e iniqüidades. São dias difíceis, mas nós, que conhecemos a Palavra, que fomos ensinados na boa doutrina, sabendo que estas coisas que iriam mesmo acontecer, só devemos ser cautelosos e, sobretudo, submissos aos ensinos do Senhor, pois, como aprendemos, a doutrina é essencial à vida cristã.
- A doutrina concede poder aos crentes. Diz o apóstolo Paulo que, quando retemos fielmente a Palavra, tornamo-nos poderosos, ou seja, temos a autoridade do Espírito Santo em nossas vidas e, por isso, podemos enfrentar e resistir ao mal. A autoridade espiritual acompanha o ensino e o aprendizado da doutrina, como nos dá conta o próprio Senhor Jesus, que, ao ensinar a doutrina, causou a admiração da multidão, por causa de Sua autoridade. Mas não nos iludamos: a exposição da doutrina somente confere autoridade àquele que, além de expor a doutrina, vive-a em sinceridade. Ensinar a Palavra e não viver de acordo com ela nada mais é que reprodução de farisaísmo (Mt.23:2,3).
III – DOUTRINA E COSTUMES
- A doutrina é a exposição da Palavra de Deus e não das tradições dos homens. Há muitos que confundem a doutrina com os costumes de uma determinada localidade, de uma determinada região, de um determinado grupo social ou, mesmo, de um segmento religioso. As tradições existem em qualquer grupo social e, como Deus fez o homem um ser social, é natural que, em toda igreja local, tenhamos costumes e tradições. Jesus, por exemplo, tinha o costume de ir à sinagoga (Lc.4:16), sem dúvida, um bom costume, mas que não passava de costume.
- O costume é, ao contrário da doutrina, algo que surge não da parte de Deus para os homens, mas, sim, da parte dos homens para os homens. Costume é uma prática, uma atitude, uma ação que é escolhida por um determinado grupo, que resolve um determinado problema na vida em sociedade e que, por isso, passa a ser praticada ininterruptamente pelos integrantes daquele grupo, adquirindo um caráter obrigatório.
- Sendo uma obra do homem, o costume tem todas as limitações que têm as criações humanas, em especial, o fato de ser algo que está submetido ao tempo e ao espaço. Por causa disto, o costume varia de região para região, de lugar para lugar e, ao longo dos tempos, ao longo dos anos, vai se modificando e, não poucas vezes, acaba se desfazendo, caindo em desuso.
- Como já dissemos, todo grupo social, e as igrejas locais não são exceção, tem seus costumes e tradições (tradição é o costume que se passa de geração para geração, que se entrega — e “tradere”, em latim, quer dizer entregar — de geração para geração). Dizer que uma igreja não tem costumes ou que não os deve ter é uma irracionalidade sem igual, é uma ilusão, para não dizermos que é uma inverdade, pois, se Deus criou o homem para viver em sociedade (Gn.2:18), fez de tal maneira que o homem criaria, nas suas sociedades, os seus costumes e tradições.
- O que a Bíblia condena, porém, é que estes costumes e tradições deixem o seu campo próprio, que é o do relacionamento entre os homens, para investir na área do relacionamento entre Deus e o homem. Como disse Jesus, ao comentar a respeito das tradições do seu tempo, a tradição não é um mal em si, mas o mal está em invalidarmos a Palavra de Deus por causa dos costumes e das tradições. No episódio em que os fariseus censuraram os discípulos de Cristo porque não lavaram as mãos antes da refeição, que era um costume do seu tempo, Jesus nem discutiu a respeito do costume, o que nos mostra que o reconheceu, mas, sim, foi a uma questão muito mais relevante, qual seja, o limite do costume e da tradição. Neste particular, mostrou que os fariseus estavam indo além dos limites, invalidando a Palavra de Deus por causa da tradição, a ponto de considerar que a ajuda de um filho a pais necessitados poderia ser negado se já havia um comprometimento de se mandar o dinheiro para o templo, algo que contrariava abertamente o mandamento de honra aos pais (Mt.15:1-9).
- Nos dias em que vivemos, também estamos a notar, para nossa tristeza, a mesma adoração vã denunciada por Jesus no Seu tempo de ministério terreno. Muito se fala, muito se prega, muito se minudencia a respeito de preceitos dos homens, ou seja, de costumes e de tradições, dando margem a toda sorte de discussões, pelejas, dissensões e, não raramente, divisões em diversas igrejas locais, esquecendo-se de que costumes podem se modificar, podem se alterar, variando conforme o tempo e o lugar e, o que é ainda mais relevante, que os costumes jamais podem invalidar a Palavra de Deus.
- Enquanto muitos se engalfinham com o “lavar das mãos”, multidões ficam sem conhecer a doutrina, que é a Palavra de Deus, ficam sem ter conhecimento do que Deus nos revelou na Sua Palavra. Os cultos de doutrina transformam-se em cultos de costumes e os obreiros deixam de ter a mesma visão que tinham os apóstolos, para os quais nada poderia lhes tomar o tempo da oração e do ensino da Palavra.
- Esta ênfase nos costumes e tradições, além do mais, tem permitido que muitas igrejas locais mais pareçam hoje grupos de discípulos de fariseus do que propriamente de Cristo. É preciso reverter esta situação, até porque, além de dar margem a dissensões, pelejas, iras e divisões, que são obras da carne e não do Espírito (Gl.5:19-21), e, portanto, procedimentos que não podem existir entre aqueles que, efetivamente, pertencem ao reino de Deus, uma tal discussão muito enfraquece a própria igreja local, não só internamente, mas também do ponto-de-vista externo, pois, nos dias em que vivemos, com o desenvolvimento intenso da ciência e da tecnologia, presenciamos um nítido relativismo cultural, as culturas, ou seja, o conjunto de costumes e tradições de determinados conjuntos de grupos, estão cada vez mais se entrelaçando, se misturando, o que diminui sobremaneira a própria autonomia de cada cultura.
- A ênfase nos costumes e tradições, portanto, além de desviar o foco da igreja local da doutrina, da Palavra de Deus, o que traz, como vimos supra, a perda da fonte de vida, de alicerce, de crescimento e de autoridade, faz com que a própria igreja se distancie da sociedade onde está, do mundo onde se encontra, o que vai completamente contra aos propósitos divinos para a Igreja que, embora não seja do mundo, está no mundo para anunciar as boas-novas da salvação. Ao pregar costumes e tradições, as igrejas locais deixam de pregar o Evangelho, que é a doutrina, trocando o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm.1:16), por preceitos de homens que nada mais são que vaidade (Mt.15:9).
- Ninguém está aqui dizendo que não devemos primar pelos bons costumes. Como já dissemos, todo grupo tem costumes e, na igreja local, estes costumes devem ser, naturalmente, bons costumes, pois nossa justiça tem de exceder a dos escribas e fariseus (Mt.5:20), tendo de ser a igreja luz do mundo e sal da terra, praticando boas obras que levem os homens a glorificar ao nosso Pai que está nos céus (Mt.5:13-16). Portanto, não há como termos os mesmos costumes do mundo, até porque, como estamos separados do pecado, somos diferentes dos ímpios, temos um caminho distinto do deles (Sl.1).
- No entanto, antes de nosso modo de viver, devemos nos preocupar com a doutrina. O apóstolo foi claro ao mostrar para Timóteo que a primeira coisa que deveria seguir nele era a doutrina e só, depois, o seu modo de viver (II Tm.3:10). Para Tito, o apóstolo disse que suas palavras deveriam ser de acordo com a doutrina, prova de que era a doutrina que determinava como Tito deveria falar e não o costume do lugar onde se encontrava (Tt.2:1). Ainda para Tito, disse que ele deveria ser um exemplo em tudo, o que inclui ter bons costumes, mas que, sobretudo, deveria ter um comportamento de incorrupção, gravidade e sinceridade na doutrina (Tt.2:7).
- O cristão tem bons costumes, seus costumes são diferentes dos do mundo, sua conduta deve ser mais excelente do que a de qualquer ímpio, pois, em todo costume, deverá mostrar que não existe qualquer tolerância com o pecado. Assim, é evidente que não se pode admitir, entre os crentes, a mesma licenciosidade e libertinagem que existem no mundo, licenciosidade e libertinagem que aumentam a cada dia que passa, já que vivemos dias de multiplicação do pecado (Mt.24:12). Entretanto, se devemos prezar pelos bons costumes, devemos nos lembrar que não são os costumes que dizem respeito à salvação nem ao relacionamento com Deus, mas, sim, a doutrina, pois só quem conhecer a doutrina poderá saber se os costumes do seu grupo social (família, escola, trabalho, cidade, país) estão, ou não, de acordo com a Palavra de Deus.
- Somente a observância da doutrina, e não dos costumes, traz salvação à pessoa (I Tm.4:16). Somente a observância da doutrina nos confere santificação, santificação esta que deve perdurar até o fim (Mt.24:13; Jo.17:17; Hb.12:14; Ap.22:11). Por que, então, centrarmos os esforços nos costumes e não na doutrina?
Colaboração para o Portal EscolaDominical: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.